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DATSI-WATE (Fura-Orelha)

Aldeia de São Marcos, maio de 1997

Rui Faquini

Quando eu era menino - por ocasião dos primeiros contatos com os índios do Centro-Oeste - meu pai me chamava de Xavante. Queria dizer: forte, bonito, indômito...

Cresci com essa imagem impressa de forma clara, mas sem nunca ter visto um Xavante, não podia aquilatar nada. Contudo, sentia saudade do dia - que fatalmente chegaria - de estar com eles na tribo tão falada.

9 de maio de 1997, sexta-feira, 14:00.

Partimos rumo à aldeia de São Marcos no Mato Grosso. Meu anfitrião, o cacique Tibúrcio - DZARIDZÉ ABHÖÖDI - meu filho Tiago, de 14 anos, e seu colega Bruno da mesma idade. O carro abarrotado de apetrechos, equipamentos e mantimentos, parecia estar preparado para uma expedição de meses. A estrada subitamente deixa de ser asfaltada e penetra nas nesgas de sertão que se avolumam e, à medida que avançamos, crescem os ares de aventura. Nas chapadas e vales grandes marcos geológicos instigam a imaginação e nos lembram pontos de orientação de bandeirantes. Nosso propósito era um simples pernoite de sábado para domingo, a fim de assistirmos ao início do DATSI-WATE, ritual da iniciação dos meninos xavantes, uma graduação como qualquer outra quando o jovem recebe a borduna de um "padrinho instrutor", o que vale como verdadeiro diploma de guerreiro.

Eu não sabia quase nada sobre os Xavantes, mas sabia que um ritual de passagem numa comunidade daquelas seria interessante e rico, ainda mais para meu filho e seu amigo adolescente.

Naquela ocasião a aldeia do Cacique Aniceto era anfitriã das festividades e quase todos os Xavantes do mundo estavam lá.

Era perto das 11 horas da manhã de sábado quando chegamos. Sol a pino, luz dura e todo mundo dançava. Disse para os meninos armarem nossa barraca no lugar indicado por Tibúrcio ao lado da maloca de seu tio, ancião de sua aldeia. Nem cheguei a ajudá-los tal a pressa de fotografar. Correndo daqui e dali, cliquei durante mais ou menos uma hora. Por volta do meio dia chegou o grande chefe Aniceto, que com sua borduna de aroeira assumia a postura de um gigante, e com uma expressão seríssima, veio caminhando com passos duros na minha direção. Comandante de todos aqueles guerreiros, responsável de tudo por ali ele demonstrava uma autoridade jamais vista por mim em ninguém.

Uh! Quem é você?

Senti ali uma sensação estranha e algo me dizia que o momento era muito grave. Me lembrei dos relatos de Jean de Lery sobre o encontro de náufragos com canibais nos primeiros dias do Brasil. Esses relatos dão conta do desprezo que um guerreiro tem pelo cara pálida covarde ou medroso. Assim, no ato, assumi a postura de representante máximo de toda a nação branca, mas com respeito e modos de um embaixador!

Sou o fotógrafo Rui Faquini.

Falando – acho que de propósito um português péssimo, me diz:

Sou o chefe aqui, posso prender você e confiscar seu equipamento. Você tem aí a autorização da FUNAI para entrar em terra indígena?

Não tenho, mas sou convidado de um cacique para estar aqui.

Olho no olho, tom de voz absolutamente medido para não soar nem alto nem baixo demais, vi a pena frontal do cocar tremer contra o céu. Só depois ficaria sabendo que os dois chefes se opunham políticamente.

O cocar contra o céu, com a grande pena de arara azul era a minha referencia total e solitária para manter os nervos e as cordas vocais nos seus devidos lugares...

Plantados um de frente ao outro no exato centro da aldeia sem ninguém por perto, ele já suarento e demonstrando grande desconforto, me dá voz de prisão. Sua ordem era que eu ficasse ao seu lado sem me afastar um passo enquanto ele de seu posto de chefe comandava todos os acontecimentos na aldeia, despachando todo tempo com outros chefes, mensageiros, etc. O sol era de rachar. Sua pele vermelha brilhava e eu suava, vendo tudo sem fotografar. Sem água ou comida, absolutamente ereto e altivo mas sem arrogância. Vez por outra ele tinha uma pausa, que invariavelmente usava para passar os pitos de índio para branco vociferando impropérios acerca da minha raça, meus e seus antepassados e sempre terminava expressando seu grande desconforto e a cruel dúvida sobre o que fazer comigo.

Aceito que errei vindo aqui sem seu consentimento, Por isso peço permissão para ir embora.

Não; você meu prisioneiro.

As horas passavam.

Tibúrcio tinha me deixado aos cuidados do irmão mais novo e foi até sua aldeia a meio dia dali. As horas passavam. O tio ancião despachou um mensageiro a buscar o Tibúrcio para resolver a situação, pois eu estava sendo constrangido.

Escureceu.

As cerimônias acabaram e chegou a grande hora. A da decisão do que fazer comigo. No mesmo lugar e da mesma forma desde o meio dia, estávamos ali plantados um fitando o outro, sós e já no escuro. Foi quando eu vi um belíssimo cometa riscando o anoitecer – acho que era o Hale Bopp -. Num gesto calculado e rápido, elevei meu dedo em riste acima do seu ombro esquerdo apontando o céu e disse em tom menor:

Você já viu o cometa?

Cometa? O que é cometa?

É aquilo lá ó. Uma estrela com rabo!

Ele se virou e olhou. Espantadíssimo e transfigurado voltou-se e perguntou:

O que quer dizer isso?

Quer dizer que quando isso acontece lá no céu, alguma coisa muito importante muda aqui na terra.

Já quase sem fala e completamente assustado me disse:

Vai para sua barraca e não sai de lá até de madrugada quando saberei o que fazer de você. Encontre-me aqui sozinho às 4 horas da manhã.

Quando cheguei na maloca do tio do Tibúrcio, onde estavam os meninos, havia uma reunião gravíssima, já com o Tibúrcio presente, para nomear um grupo de anciãos para negociar com o grande chefe a minha liberdade. Assim fui mandado dormir com uma guarda montada pelos guerreiros do Tibúrcio à entrada de nossa barraca.

As negociações rolaram noite adentro e não tive que comparecer ao fatídico encontro da madrugada. Às seis da manhã, acompanhados pelo Tibúrcio e alguns homens, fomos ver a cerimônia do "Bate-Águas", onde as mulheres não são permitidas e que, dizem os mais velhos, amolece o lóbulo da orelha para facilitar o furo. Lá estava o grande chefe, que ao me ver, veio em minha direção e em voz bem alta disse:

Você pode fotografar. Agora você é meu convidado! Quando acabar a prova do "Bate-Águas" você é meu convidado de honra para a prova do "Caminhar na Mata".

Isso fez com que Tibúrcio ficasse incomodadíssimo; me puxou pelo braço e disse:

Você não pode ir com ele para a mata. Pode acontecer acidente com cobra. Também não pode recusar convite de honra!

Eram nove horas da manhã quando terminou o "Bate-Águas". Aí bolamos um estratagema diplomático para que o grande chefe não sofresse desfeita, mas me deixasse partir. Assim fomos em embaixada à casa dele declinar do honroso convite. Autorizados partimos imediatamente.

Portanto, no todo, fotografei mais ou menos 4 horas de um festival que dura dias com várias provas.

Um Datsi Wate completo é um festival onde todos participam ativamente e no qual tudo tem significado. No dia que antecede à festa, que pode durar meses, os jovens têm de dançar e cantar de cabeça baixa, sem olhar para os lados, durante doze horas - de sol a sol - acompanhados pelos padrinhos instrutores e eventualmente crianças, mulheres, velhos, etc.. Encenam ainda dois acontecimentos noturnos, sendo o último, o canto dos jovens à meia noite. Os cânticos, ou DAINHO-RE, são como um mantra que permeiam todo o corpo - e não somente os ouvidos - a batida surda dos calcanhares contra o solo e faz tremer a terra como se ela tivesse coração.

Aqui e agora o encontro com o passado remoto transforma-se num entroncamento atemporal onde calções vermelhos interrompem o luzidio dos lombos e horizontalizam o homem. São como o travessão da cruz.

Esse povo milenar sobrevive aos tempos e permanece semi-isolado; se não sucumbe à miséria, é por mérito de uma cultura altamente sofisticada que permite resistir ao pernicioso processo do sistema tutelar que tem servido basicamente de anteparo a qualquer forma de integração do índio e protelado sua autonomia econômica. Quando se fala hoje em problemas de impacto está se escamoteando a verdade ou, no mínimo, sendo-se cínico. Sabemos todos muito bem o que perpetram as missões religiosas, os garimpeiros, fazendeiros, madeireiros, e os eco-turistas de ocasião, convidados de autoridades, ou mesmo aqueles simples mortais que ouço dizer, subornam chefes para fruírem desse "éden".

Não há que se tapar o sol com a peneira tentando evitar um impacto que já houve. Há sim que se gerenciar esses impactos, cada vez mais rápidos e devastadores a medida que o mundo se globaliza, administrando-os em favor desses povos e não contra. Como é possível uma globalização sem a participação e o bem estar de todos?

É preciso lembrar urgentemente que os tempos estão mudando com tal rapidez, que já se deve redirecionar com coragem as práticas (a seu tempo heróicas e importantíssimas) da era dos irmãos Villas Boas, Darcy Ribeiro, e outros. Em ecologia como na física, a toda ação corresponde uma reação igual e contrária. Por isso, um pensamento meramente preservacionista nos dias de hoje, é pernicioso, porque tardio. O mesmo também ocorre em relação ao purismo antropológico clássico que já não é o bastante como prática de relacionamento com a maioria desses povos.

Há de se administrar tudo isso com mentalidade e métodos novos, sob pena dessa vir a ser mais uma estória de desperdício das riquezas brasileiras. Por exemplo, podemos acudir algumas de nossas comunidades indígenas já aculturadas dando-lhes assessoramento adequado, para que suas riquezas possam ser exploradas em proveito próprio ao invés da esmola oficial.

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