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Gibão - 04/02 a 09/02 de 2005

 

Em nossa recente viagem a Bahia, já voltando, passamos por Januária e ficamos sabendo do Gibão. Fizemos a primeira tentativa de chegar lá por Bonito de Minas. Faltando apenas sessenta quilômetros (as estradas locais permitem uma média de 25 kms/hora), decidimos retornar a Brasília devido a nossa exigüidade de tempo. Desde então, estávamos aguardando a ocasião para encetarmos a expedição exploratória. Ficamos ainda mais inspirados, ao ver numa edição recente do Grande Sertão, Veredas do Guimarães Rosa, um mapa estilizado da região, e lá estava, ao norte de Januária, o nome de uma localidade: Rompe Gibão.

Quando Ricardo anunciou que venderia o Land Rover (nosso veículo oficial das expedições há pelo menos sete anos) ficamos meio deprimidos e resolvemos então fazer a última viagem no carnaval de 2005. O Ricardo não poderia ir pois já tinha combinado de ficar com Antônia. Convidamos então o Alexandre Magno e com o Rui, Tomás e eu, completou-se a equipe.

Na véspera da viagem o Sidney comprou o Land Rover e colocou o carro na mão do Rui, e assim partimos para os preparativos muito mais felizes.

Passamos o dia de sexta-feira fazendo as compras necessárias e organizando a tralha geral de camping e fotografia. Eram quase seis horas da tarde quando terminamos de acondicionar toda a bagagem no carro e pegar o rumo da estrada. Ficamos sabendo que a ponte sobre o Rio Tamboril, já quase chegando em Unaí, estava interditada devido as fortes chuvas que haviam caído recentemente na região.

Decidimos entrar por Palmital, passando por Cabeceira Grande,  e a noite caiu quando alcançamos Cabeceiras de Goiás. No chapadão alguns quilômetros adiante, paramos e nos extasiamos com o céu sem lua estreladérrimo, e pudemos visualizar claramente as constelações de Andrômeda e Magalhães.

Decidimos que não dormiríamos em Arinos, pois ficamos traumatizados com a nossa estada lá um mês antes. Uma barulheira infernal de som de bar e carros com potentes alto falantes passando pela rua em frente ao hotelzinho decadente. Tentaríamos Uruana.

Depois de percorrer apenas 250 kms, chegamos a Uruana 11:30 da noite, localizamos um pequeno hotel bastante simples, e fomos comer alguma coisa num trecho mais movimentado da cidade. Algumas partidas de sinuca e fomos dormir.

Amanheceu um belíssimo dia, que nos colocou na estrada cedo e lá fomos nós pela estrada de terra e pontes de madeira, passando por Sagarana, Riachinho, Conceição e à medida que avançávamos para o leste, nosso caminho ia se estreitando. Numa bifurcação, optamos seguir pela esquerda. Bem lá na frente, vinha um caminhão e demos sinal para ele parar a fim de pedirmos explicações. O motorista estava muito nervoso, pois estava perdido e voltando para pegar o outro rumo a direita. Afirmou que a estrada a frente estava cavernosa com um atoleiro enorme. Como nosso rumo estava correto, resolvemos seguir adiante e rimos muito do nervosismo do pobre motorista. O tal atoleiro estava logo adiante e o motorista nem percebeu que havia um desvio. Mas ainda assim resolvemos passar pelo atoleiro. Foi aí que descobrimos que o bloqueio do diferencial não estava funcionando. Passamos com tranqüilidade e realmente descobrimos que estávamos na estrada errada. Essa estradinha levava a uma fazenda e uma localidade chamada Capão Novo na margem esquerda do Urucuia. Não precisamos retornar, pois um vaqueiro nos ensinou um jeito de atalhar para a estrada principal seguindo adiante. Já perto de São Romão, tomamos um belo banho de Vereda. Almoçamos no restaurante Arlene, atravessamos o Rio São Francisco na balsa, e viramos para o norte.

Chegamos a Januária, em pleno sábado de carnaval, às 9:00 da noite. A cidade estava inviável e decidimos retornar quase sessenta quilômetros até Lontra a fim de achar um pouso tranqüilo. O melhor hotelzinho da cidade estava lotado e, já exaustos, o jeito foi dormir no hotel do posto de gasolina, que pelo menos se chamava Posto Fantástico! Jantamos na Juanita junto com uma congregação de crentes. Depois de 500 quilômetros, 350 de terra, 150 de asfalto e duas garrafas de vinho fomos zonzos para a cama.

Amanheceu outro belo dia, cruzamos novamente o Rio São Francisco e depois do café da manhã em Januária, marquei o Gibão no GPS e seguimos para Cônego Marinho. Como as pessoas não sabiam ao certo dar informações para o Gibão acabamos seguindo pela estrada de Miralvânia. Passamos por extensas áreas dos Geraes, um cerrado não muito alto e denso como a caatinga. Almoçamos em Miralvânia e tomamos banho na cachoeira do local. Pegamos as informações do atalho para o Gibão – passa dois mata burro, pega a esquerda, na cancela vira a direita, contorna Vaca Preta e lá tem morador, torne a perguntar - e seguimos pelos caminhos improváveis. Eu já tinha notado que o Gibão estava sempre há uns 90 kms de distância e era como se estivéssemos fazendo um arco em volta do nosso destino, mas quando saímos de Miralvânia, a agulha do GPS aprumou e passou a apontar o rumo distante, porém correto.

Contornamos a Vaca Preta, que veio a ser uma vereda e encontramos algumas pessoas. Ao pedirmos as informações, uma delas se adiantou pedindo uma carona para buscar um ônibus que estava dezessete quilômetros adiante, onde deveríamos fazer a travessia do Rio Cochá. E assim ficamos conhecendo o Chico Doido, motorista de ônibus!!!!!!!!!!! da região. Depois de suas dicas, passamos mais duas vezes no Cochá. Na primeira encontramos duas siriemas mansinhas e tiramos muitas fotos delas e na segunda, tomamos um banho revigorante. Passamos pela vila de Novo Horizonte e seguimos no rumo do Gibão pela estrada de areia. O sol já ia caindo, o GPS marcando 70 kms para o destino e começamos a ficar de olho num lugar aprazível para acampar.

Ao passarmos por uma pessoa, perguntamos pelo Gibão e ele nos falou – é logo ali depois da curva -. Ainda incrédulos, fizemos a curva, encontramos uma cerca com o colchete aberto, um pequeno descampado, uma construção com teto de palha e lá estava uma bela cachoeira e nenhum ser humano. O Alexandre e o Tomás caminharam um pouco adiante e encontraram apenas uma construção vazia de beneficiamento de coco de buriti. O Rui, meio inseguro pegou o carro e nós ficamos por ali, estudando o local e aguardando. Daqui a pouco chega o Rui, que havia encontrado a vila, o pessoal jogando futebol e nos informou que estávamos autorizados a usar o local.

No finalzinho do dia montamos as barracas e organizamos a cozinha dentro da construção. A vila em peso veio ao local, deu uma olhada e foi embora, ficando apenas o Negão, responsável pelo local, a Rai, sua mulher e a Ilma, irmã do Negão. E foi só aí que me dei conta que havia marcado no GPS a Serra do Gibão, onde o rio do mesmo nome nasce e que está situada bem ao norte do mapa de Buritis, e sem ter o mapa imediatamente ao norte, não sabia da existência do rio que corre na direção do Rio Carinhanha na divisa de Minas com a Bahia. E lá estávamos nós, praticamente na foz do Gibão, a apenas dois kms da Bahia e a setenta de sua nascente. Nesse dia, fizemos duzentos kms em dez horas de viagem!

A janta foi macarrão com molho de tomate, azeite, cogumelos, alcaparras e queijo parmesão. Havia uma mesinha de sinuca e mesmo com o forro rasgado, o Rui e o Alexandre se divertiram a valer.

Dormimos ao som borbulhante das cachoeiras do Gibão.

Na manhã seguinte, conforme havíamos combinado, tiramos tudo do carro, exceto os equipamentos fotográficos e juntos com o Negão, a Rai, a Ilma e sua irmãzinha Nilma, percorremos uns quinze quilômetros para conhecer a cachoeira do Gavião no Rio Carinhanha. Passamos pela fazenda do S. Lídio, onde pegamos informações e vimos seu alambique no caminho do rio. Ao descermos a mata ciliar do Carinhanha, um toco ou um galho fez um pequeno rasgo no pneu. Ao pararmos na beira do grande poço, o pneu já estava completamente vazio. Demos um mergulho e fomos cuidar do problema.

Logo verificamos que havíamos deixado a maleta de ferramentas do guincho no acampamento e, provavelmente o segredo que encaixa na chave de roda para retirar o pneu estepe deveria estar lá, já que não encontramos junto com as demais ferramentas do carro. Como tínhamos comprado um spray de emergência, decidimos testa-lo. Depois de muito esforço apertando o botão que libera o produto e gastar todo seu conteúdo, verificamos consternados que não havia surtido efeito algum!

A situação começava a ficar realmente complicada. Quando falamos para o Negão que ele teria que ir buscar a maleta de ferramentas, o homem quase chorou. Embora estivéssemos a apenas oito quilômetros em linha reta do acampamento, era um percurso árduo de areia, brejos, matas, serras, cerrado e sol quente. Para espantar os mosquitos, o Tomás preparou uma fogueira e ao levantar um pau, se deparou com um enorme escorpião vermelho. Deixamos o bicho lá e voltamos a tentar novas soluções para o pneu. Enquanto o Rui tentava  bater com a chave de roda na fenda do parafuso a fim de tentar roda-lo, passei a procurar desesperadamente alguma coisa dentro do carro que se encaixasse nas fendas e acabei encontrando as capinhas desses mesmos parafusos. Tive absoluta certeza de ter encontrado a solução para o problema. Quando mostrei as capinhas, queriam me bater, mas quando encaixaram a capinha no parafuso e esta se fixou e criou a resistência suficiente para rodar o parafuso, o alívio foi geral. O trabalho subseqüente de trocar o pneu transcorreu rapidamente e depois de um lanche de bananas secas, biscoitos e café, o Rui quis voltar rapidamente para o acampamento e não ter mais surpresas mas o Tomás tinha ido tirar umas fotos da outra cachoeira e demorou muito a voltar.

Finalmente retornamos passando novamente no S. Lídio e paramos lá para perguntas sobre a cachaça. Ficamos sabendo que ele produz vinte mil litros por ano, vendendo a produção em Januária, que engarrafada ganha o nome da famosa Carybé, que há tantos anos apreciamos. Fomos agraciados com um gole da pinga puríssima, mas infelizmente ele não tinha nem um litro para nos vender.

Ainda tomamos um banho de poço de vereda e colhemos alguns pequis que fizeram parte do carreteiro que o Rui preparou assim que retornamos ao acampamento. Ganhamos também um frango da Ilma, que o Negão e a Rai trataram e o Rui preparou com curry e macarrão. Adicionamos no panelão do carreteiro uma única pimenta que tínhamos ganhado da Juanita lá na distante Lontra e que por pouco não inviabilizou o prato.

Descarregamos as imagens no computador do Alexandre, jogamos mais sinuca e já nos preparando para o retorno, fomos dormir. Na manhã de terça-feira desmontagem de acampamento, banhos e café da manhã. Longas conversas com o Negão sobre as questões ambientais, o futuro deles e daquele local e às 11:00 da manhã ensolarada, deixamos a Cachoeira do Gibão.

Seguindo agora para o sudoeste, ainda percorremos um longo trecho contornando veredas com o Carinhanha à nossa direita. Tomamos um banho no Gibão bem mais acima e mais acima ainda, colhemos suas águas em nossos garrafões. Alcançamos um enorme chapadão e passamos a menos de dez quilômetros do local que marquei no GPS - a Serra do Gibão.

Depois desse extenso e interminável chapadão, alcançamos um pequeno declive e chegamos no S. João e D. Eva. Levamos cinco horas para percorrer o trecho de pouco mais de cem quilômetros. Ao entregarmos o retrato que tínhamos feito na viagem anterior, D. Eva ficou tão impressionada que nos encheu de mimos: pimentas frescas, abacaxi, seriguelas e ainda presenteou o Tomás com mudas de cactos. Lá, encontramos um agrimensor que nos contou que gringos estão comprando as terras na região do Gibão por conta do seqüestro de carbono ratificado no protocolo de Kyoto. O alcance e as conseqüências dessas ações me fogem a compreensão nesse momento, portanto deixo para outra hora qualquer consideração.

Retomamos o chapadão, dessa vez já na esfera dos gaúchos com suas casinhas e alamedas de eucaliptos cercadas pelos extensos campos de soja. Na pequena vila não localizamos nenhum borracheiro. O jeito foi seguir torcendo para não haver nenhum imprevisto com os outros quatro pneus. Ainda percorremos uma boa extensão de chapada e estrada péssima até alcançar uma região montanhosa e finalmente chegar em Arinos por volta das seis e meia da tarde. Nossas perspectivas estavam desanimadoras, o decadente e barulhento hotel em Arinos, o ultra-simples dormitório em Uruana 50 kms adiante ou ainda, encarar quatro horas de uma cansativa viagem à noite até Brasília. Logo na entrada da cidade vejo uma placa: Big Hotel - apartamentos com TV, ar condicionado e frigobar. Quase não nos contivemos na expectativa, telefonamos, fizemos a reserva e um rapaz de moto se ofereceu para nos guiar até lá.

Era um prédio novinho em folha, com apartamentos frescos, limpos e ventilados. Excelente roupa de cama e banho. Tudo que a gente precisava e, para completar, o borracheiro logo ali na esquina. Pensar que furamos o pneu e fomos encontrar o primeiro borracheiro 30 horas e 210 kms depois! Banho tomado, jantarzinho bem razoável no restaurante do posto e uma noite restauradora.

Voltamos a Brasília por Formosa e comemoramos o fim da viagem com um almoço no Carpe Diem.

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