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Roteiro da Cachaça: 

     de Brasília a Itaúnas

Texto: Liana Fraifeld          Fotos: Rui Faquini

Esse é um roteiro para pessoas que gostam de aventura e natureza, para quem dispensa o celular e não se incomoda em dormir nos quartos simples de hotéis baratos.

Depois de estudar o mapa rodoviário, o trajeto foi escolhido dando prioridade às estradas alternativas de terra ligando cidades que, saindo de Brasília, nos levasse ao litoral. Logo percebemos que atravessaríamos, além de serras e rios, a região produtora das melhores cachaças do Brasil.

Saímos de Brasília, no sábado de carnaval para Unaí, primeira cidade de nosso roteiro. Almoçamos no Tonel do Chopp, e quando mostramos nosso interesse pelas cachaças, o próprio dono nos conduziu ao simpático restaurante Monjolo, com farta adega de boas aguardentes.

Deixamos o asfalto logo depois de Unaí, derivando para o sul no rumo de Bonfinópolis. O tempo chuvoso não era obstáculo para nós e seguimos por extensas regiões produtoras de soja e milho, entremeadas de terras exauridas e abandonadas. A chuva adensava e passamos por uma manga pesada de uns vinte quilômetros. Aí, como se tivéssemos passado por uma cortina, os plantios deram lugar ao cerrado do outro lado. Paramos para colher pequis que eram muitos pelo chão e observar as araras que também gostam muito desse fruto.

Nova parada para apreciar o Rio Conceição, afluente do Urucuia ao sul. Depois passamos por um chapadão com extensas pastagens formadas pelo capim braquiária e árvores de grande porte remanescentes do cerradão. Sem percebermos nenhum declive acentuado chegamos a cidade de São Romão na beira do São Francisco, o rio que nos emociona com sua história de grandeza, exploração e abandono.

Demos uma volta para ver se havia algo de atraente na beira do rio, mas não havia. Logo percebemos que estávamos num lugar onde o turismo passa longe. Nos instalamos no pequeno hotel São Lucas e fomos para o restaurante da Gislene. Ficamos sabendo que a cidade tem 365 anos e a queda da navegação trouxe a decadência.

Com um gole da boa pinga comprada em Unaí, comemoramos o primeiro dia de viagem. Jantamos piranha e pacomã com pirão, arroz e nossos pequis colhidos no caminho. Pela manhã explorávamos a cidade quando ouvimos o som de portentosos carrilhões conclamando a população para a missa. Por um instante nos iludimos e pensamos encontrar uma catedral apinhada de fiéis em pleno sertão, mas logo verificamos que se tratava de uma gravação - possivelmente da Basílica de São Pedro - transportada magneticamente para o interior do Brasil.

Depois do sobressalto, seguimos para a pequena rampa no barranco do rio cheio e entramos na balsa. Durante a silenciosa travessia, imaginamos o rio revitalizado, com suas cidades restauradas e barcos de passeio e turismo percorrendo seus encantos.

A vegetação da margem direita do rio se mostrou mais densa e pujante. Alcançamos Coração de Jesus na hora do almoço. Comemos galinha caipira no restaurante Cá Te Quero e com informações de um povo de motocross, seguimos para Montes Claros via Rebentão. Não resistimos e demos uma parada nessa pequena cidade com calçamento pé de moleque onde o tempo parou. Sentamos na grande praça retangular, com a Igreja e casinhas coloniais singelas a toda volta, para curtir um pouco a atmosfera do século XVIII.

Em Montes Claros ficamos um pouco confusos com a civilização depois de dois dias off. Celulares ligados, recados tomados, família tudo bem, seguimos nosso rumo. Rumo? Mais confusão. Pedimos informação da saída para Itacambira e nos mandaram para Itacarambi no sentido oposto. Desfeita a troca ortográfica voltamos ao nosso destino.

Belo destino para os altos da Serra do Espinhaço. Estradinha montanhosa de fazendas passando por Juramento e Pau D’Óleo. Subimos bastante e no final da tarde atingimos o que parecia o topo do mundo. Um cerrado de alturas com arnicas, orquídeas e canelas de ema floridas. O visual de montanhas se desenrolando sem fim. A decisão foi unânime e ali montamos acampamento.

O céu que vinha nos acompanhando encoberto desde Brasília, deu uma brecha e escancarou a abóbada magnificamente estrelada. Com a constelação de Touro sobre nossas cabeças saboreamos pão italiano, queijo da terra e vinho chileno em volta de uma pequena e bem cuidada fogueira.

Pela manhã descemos por uma estradinha pouco batida até chegar no fim do vale. Ali, no encontro de dois riachos que formam o Rio Congonhas tomamos um banho revigorante e retomamos a estrada principal. Avistar Itacambira do alto é espantoso. Uma jóia incrustrada nas montanhas. Tomamos o café da manhã de cerveja preta e lingüiça, no bar ao lado da igreja do século XVIII.  Nos informarmos das direções  e seguimos por uma estradinha entre pequenas propriedades rurais.

Lá pelas tantas iniciamos uma descida acentuada em pequenas curvas fechadas e mesmo sem ter o visual sabíamos que estávamos mergulhando no profundo Vale do Rio Jequitinhonha. E ao final da descida lá estava a pequena ponte e o rio, veloz e assustador, espremido pelas paredes do canyon que o conduz até a Bahia.

Almoçamos rapidamente em Turmalina, sem poder explorar a cidade pois já estávamos atrasados em nosso cronograma. Passamos por uma estradinha ultra ziguezagueante entre Setubinha e Malacacheta e pudemos observar nas encostas, os buracos  da mineração de pedras e mica, ao longo do caminho. Cruzamos Teófilo Otoni e chegamos em Ataléia, onde pousamos no dormitório Novo Mundo.

E assim deixamos Minas Gerais para entrar pelo noroeste do Espírito Santo. Logo verificamos que nosso guia rodoviário a partir dali se mostrou inútil. As estradas que pretendíamos seguir não existiam ou eram bem diferentes do que estava descrito. Passamos por vários sítios com suas próprias cachoeiras antes de chegar a Ecoporanga. Já na cidade paramos para informações no trailler 20V (Vim Te Vê) e tomamos a primeira pinga com cipó cravo – um cipó que deixa a cachaça com tom vermelho e, segundo alguns, efeitos eróticos.

Só para registro, vimos uma pousada chamada Nhambu que pareceu uma opção bem melhor que o dormitório Novo Mundo em Ataléia. Da próxima vez, programar melhor o percurso. Não sei se foi o cipó cravo, a pressa de chegar ou os erros do guia rodoviário, mas tivemos que dar uma grande volta pelo sul, passando por Nova Venécia. Deu mais trabalho cruzar o estreito estado do Espírito Santo do que a enormidade do território mineiro.

Chegamos na tarde de terça feira de carnaval em Itaúnas, sem ter encontrado nenhum carnaval em todos os lugares que passamos. E felizmente para nós, também na cidade de Itaúnas, cidade de grande expressão do forró tradicional, carnaval não entra.

Nos instalamos na casa de dois quartos que alugamos por indicação da dona de uma das pousadas lotadas. Rapidamente colocamos as roupas de banho, atravessamos a ponte e as dunas, extasiados com a grande quantidade de gente caminhando em todas as direções. Mas tudo num alto astral, gente alegre e bonita, sem som alto em lugar nenhum e tudo muito limpo. Logo percebemos um exemplo, que com os cuidados necessários, o turismo em grande escala é possível no Brasil.

Do outro lado das dunas, o mar tão esperado. Água limpíssima na temperatura perfeita e ondas nas quais subíamos e descíamos por um tempo incalculável. Quando finalmente nos saciamos depois de muitos mergulhos, retornamos para a cidade no final da tarde. No Centro de Visitantes conhecemos mais profundamente a impressionante história do soterramento da antiga Itaúnas pelas dunas de areia. À noite nos deliciamos com o ritmo sensual do forró.

No dia seguinte fomos cedo fazer o passeio contratado no dia anterior na Casinha de Aventuras. Uns embarcaram na canoa esculpida no tronco de pequi, conduzida pelo S. Graciolino, outros partiram de caiaque subindo o rio Itaúnas. Passeamos por uma pequena amostra de mata. Esse capítulo relativamente recente na região, do desmantelamento da Mata Atlântica para reflorestamentos de eucaliptos nos deixou deprimidos naquela manhã.                      

Fomos para a praia em seguida desanuviar os pensamentos pesarosos e com a maré baixa, mar limpo, temperatura deliciosa, piscinas e ondinhas suaves, a alegria voltou. O fim do mar visível era azul profundo e veio se tornando verde claro até as ondas brancas. Almoçamos uma deliciosa moqueca feita pela Neide, filha da dona da casa que alugamos. Dormimos o sono dos justos e a tarde voltamos a praia e demos uma boa caminhada até as lonjuras desertas. Observamos o por do sol e o movimento das pessoas e das carroças puxadas por burros, trazendo mantimentos e levando o lixo embora.

Nessa noite, dormimos cedo. Teríamos que iniciar nosso caminho de volta no dia seguinte, mas uma rebeldia adolescente nos fez ficar por mais um dia e nos demos esse dia para brincar e divertir. Tomamos champagne na praia, jogamos frescobol, nos deliciamos nas piscinas da maré baixa, fizemos amizades com paulistas e mineiros, muita água de coco e uma enorme caranguejada na hora do almoço. Último banho no mar de Itaúnas e despedida do por do sol nas dunas e finalmente, preparativos para partir.

Sexta-feira cedo, tomamos o rumo norte para tentar encontrar uma última praia especial para despedida do mar. Brindaríamos com a champange gelada acondicionada na mala térmica com bastante gelo e depois encararíamos os mais de mil quilômetros a oeste.

Chegamos na Costa Dourada, primeiro lugarejo no sul da Bahia. Lugar esquisito com construções mal acabadas. Não nos mobilizou. Perguntamos sobre a praia 2, que constava no roteiro que nos deram na Casinha de Aventuras. Pegamos uma trilha pouco usada e chegamos no alto de um barranco onde avistamos extasiados a bela praia 2, com suas falésias de um lado e de outro com um riozinho de água doce serpenteando para o mar. Nenhuma pessoa a vista.

Nos instalamos num refúgio parecendo o ambiente do filme Lagoa Azul. Ao descermos os mantimentos do Land, tivemos um novo ímpeto adolescente e decidimos acampar por ali e permanecer mais uma noite. Rapidamente nos organizamos. Enquanto uns voltavam a Costa Dourada para comprar comida, outros preparavam o acampamento. Peixe fresquinho adquirido de pescador foi a pedida para o almoço, acompanhado de arroz e farinha e a champagne, é claro! Entre um afazer e outro, banhos de mar e rio.

O entardecer foi deslumbrante. A maré estava no auge de cheia. Fomos nadando, boiando, arrastando, rastejando, rolando pelo rio até chegarmos ao mar. Doce, sal e as ondas fortes e gentis. Ao exato por do sol fomos voltando lentamente, nos deixando conduzir do mar para a pequena boca do rio. Sal, doce. Banho tomado, corpo limpo, ventinho frio que nos fez correr e pegar as toalhas. Jantamos macarrão com carne desfiada sob um céu lindamente estrelado e mergulhamos em nossas barracas.

Na manhã seguinte, cuidamos para deixar o local mais limpo do que encontramos e desta vez dar o último tchau para o mar. Com um dia de atraso, tínhamos que ser objetivos no retorno, porém os enormes eucaliptais nos pregaram uma peça e levamos um bom tempo para sair do emaranhado sem sinalização alguma.

Depois de alguma pauleira de BR 101, BR 418, BR 116 chegamos em Araçuaí às cinco horas da tarde. Era sábado e a Associação dos Artesãos do Vale do Jequitinhonha já tinha fechado. Fomos atrás do Luís e da Joana que tomam conta de lá e foram muito gentis em abrir para nós. Nosso encanto rendeu dois jacás enormes cheios da famosa cerâmica e outros artesanatos que amarramos no bagageiro do Land Rover. 

No dia seguinte fomos para os bares do Zezão e do Osvaldo adquirir as pingas da região, não tão conhecidas mas tão boas ou melhores que as de Salinas. Atravessamos o rio Araçuaí e tomamos o rumo norte para Salinas. A grande surpresa foi um asfalto novinho que parecia só nosso. Passamos por Cel. Murta na margem do Jequitinhonha e deixamos o Minas profundo subindo para Salinas.

Domingo, tudo muito calmo em Salinas. Nos recomendaram o restaurante Bakaninha bem tradicional e freqüentado pela famílias da cidade. No cardápio muitas bebidas, mas nenhuma cachaça!

Visitamos a Tanoaria do S. Antonio Rodrigues, que fabrica a Seleta e a Boazinha, e que por sorte nos levou pessoalmente. Fomos também ao Bar do S. Laeste e ficamos sabendo que a alambicagem começa a partir de junho. Depois de ajeitar as caixas de cachaças no carro seguim os pelo asfalto até São Francisco, onde pousamos. Nosso tempo apertado não permitiu conhecer esta tradicional cidade ribeirinha e logo cedo estávamos na balsa dando adeus ao velho Chico.

Retornamos a estrada de terra com todo cuidado com nossas cerâmicas e cachaças a bordo. Curtimos a enorme vastidão de cerrado agreste da vertente ao norte do rio Urucuia. Almoçamos em Arinos e fizemos um retorno tranqüilo para Brasília. Chegamos sob chuva às cinco horas da tarde, com um dia de atraso e 3100 quilômetros rodados.

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